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Disrupção digital: como podem os líderes no Governo responder

Embora esta revolução seja global, um dos níveis mais importantes de tomada de decisão e de ação encontra-se nos níveis nacional e regional, apelando aos líderes governamentais e a uma ampla gama de stakeholders nas empresas, no meio académico, aos cidadãos e aos media para que atuem de forma decisiva.

Então, o que devem fazer os líderes governamentais e do setor público para garantir que um país, uma região ou um ecossistema económico não fique para trás e que o maior número possível de cidadãos beneficie com a revolução digital, ou a Quarta Revolução Industrial (usando o termo que marcou a Conferência de Davos em 2018)?

Países, regiões e ecossistemas económicos têm diferentes desafios e níveis de maturidade. No entanto, com base na nossa experiência de trabalhar em projetos com Governos e vários stakeholders, e na nossa pesquisa, é importante agir de forma estruturada em, pelo menos, oito dimensões[1].

  1. Tornar o desafio digital uma prioridade para o país, região ou ecossistema
  2. Utilizar o eGovernment como âncora
  3. Garantir a máxima conectividade à internet de banda larga
  4. Promover um ecossistema empresarial forte e aberto
  5. Estimular as empresas para se transformarem
  6. Desenvolver competências digitais críticas
  7. Combater a exclusão digital – proteger a sociedade
  8. Envolver campeões e conselheiros de topo

1. Tornar o desafio digital uma prioridade para o país, região ou ecossistema

Os líderes governamentais do setor público precisam de estabelecer um sentido de urgência, de definir uma visão partilhada, de mobilizar a sociedade e de construir uma estrutura de ação ou plano diretor com o máximo apoio de uma ampla variedade de stakeholders. Tal não é fácil, dado que muitos dos conceitos desta sociedade da informação emergente são vagos, os novos modelos são difíceis de visualizar pelos gestores públicos e empresariais, a resistência e o medo da mudança são endémicos na sociedade, e o setor dos media se concentra mais nos eventos diários de curto-prazo.

Várias ações podem ser realizadas a este respeito. Os líderes deveriam ter a coragem de colocar a transformação digital no topo da agenda política. Afinal, os postos de trabalho criados ou ameaçados pela tecnologia importam, assim como as novas formas de servir o cidadão na saúde, na educação e noutras dimensões sociais. É importante colocar a responsabilidade política ao mais alto nível no Governo, não num ministério periférico ou num agente político com pouco peso e notoriedade. Também é útil constituir e capacitar um ou mais grupos de stakeholders com uma opinião real na política e em termos de implementação. Uma alavanca operacional útil passa por introduzir uma agenda digital em todos os orçamentos do Governo, nos níveis nacional, ministerial, regional ou institucional.

 

2. Usar o eGovernment como âncora

Os líderes governamentais devem abraçar com ousadia a agenda digital e constituir Governos centrados no cidadão, quebrando o máximo possível os silos governamentais, integrando as mais recentes tecnologias para construir um relacionamento “um a um” com cidadãos e empresas em vez do relacionamento dominante de “um para muitos”.

A chave para o sucesso não é a conceptualização mas o impulso para a implementação.

Vários países fornecem estudos de caso de melhores práticas e de lições aprendidas que podem ser facilmente adaptadas. Diversos órgãos reputados, como a OCDE - Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico, pesquisaram e desenvolveram diretrizes sólidas.

É necessário digitalizar inteiramente o setor público com novas ferramentas digitais e mudar processos, cultura e modelos de serviço. Capacitar os Governos central, regional e local com orçamentos e pessoas com competências de coordenação e de implementação para sustentar uma implementação forte. Acima de tudo, é necessário evitar iniciativas governamentais fragmentadas, que se sobrepõem, duplicam ou entram em conflito. Os CIO do setor público têm de ser colocados mais acima na hierarquia. Os projetos transversais transformadores precisam de ter apoio total em termos políticos e orçamentais, com base em propostas de casos de negócio e calendários apertados.

Além de construir Governos centrados no cidadão, os líderes devem usar o eGovernment como uma âncora para acelerar a transformação digital nas sociedades, envolvendo as empresas na implementação do eGovernment, para maior eficácia e para fortalecer a estrutura económica e proporcionar oportunidades a start-ups, através de procurement inteligente.

Mais ainda, algumas estratégias podem acelerar a transformação digital na sociedade. Por exemplo, as TIC (tecnologias da informação e comunicação) na educação têm um impacto fundamental nos cidadãos do futuro, mas também permeiam toda a sociedade através das famílias dos alunos. As soluções “smart city” envolvem o cidadão comum em novas formas de viver.

A regulamentação governamental pode desbloquear ou bloquear o impulso social para a modernização digital. Esta alavanca não custa dinheiro e é frequentemente negligenciada.

 

3. Garantir a máxima conectividade à internet de banda larga

Embora medir o impacto exato da penetração da internet de banda larga apresente vários desafios aos researchers, o seu papel é inquestionável enquanto facilitador disruptivo do crescimento económico, da inovação e da produtividade, excedente do consumidor, reforço/empoderamento da cidadania, criação de emprego e redução dos níveis de pobreza, entre outros. Mais importante, porém, é o facto de que aqueles que não têm banda larga, ou seja, meios de acesso à circulação de dados, serão cada vez mais excluídos da competitividade e dos ganhos sociais associados.

Assim, o objetivo de ter “todos digitalmente ligados em todos os momentos a alta velocidade e a preços acessíveis” não é mais uma utopia, mas uma necessidade para todos os países que não querem ser excluídos do mundo digitalmente interconectado de oportunidades económicas e sociais. Mesmo para as economias/países menos desenvolvidos, o acesso à internet é fundamental para reduzir a pobreza relacionada com a falta de informação, de conhecimento e a distância. A política no passado de “acesso universal” à comunicação por cabo deveria ser aplicada à banda larga.

No entanto, promover a banda larga coloca várias questões que exigem uma forte liderança por parte do Governo.

 

Em primeiro lugar, a banda larga só é eficaz se fornecida em combinação com a adoção de tecnologias da informação e mudanças socioeconómicas, i.e., novas aplicações, serviços e conteúdos, e mudanças nos processos governamentais e de negócios relevantes para o estilo de vida das pessoas. Assim, políticas simplistas do lado da oferta, baseadas na implantação de infraestruturas, estão destinadas a falhar no seu impacto e a gorar os financiadores. É necessária uma política equilibrada de oferta e procura, integrada com processos sociais relevantes para as pessoas – saúde, educação, serviços públicos, novos serviços para os consumidores pelas empresas. Isto exige estratégias diferenciadas para diferentes grupos socioeconómicos, abordando de maneiras distintas ricos e pobres, grupos sociais desfavorecidos, economia rural e urbana, formal e informal, faixas etárias, áreas geográficas e diferenciando a maturidade dos setores económicos.

Além disso, estes serviços precisam de ter preços acessíveis para cidadãos e consumidores e ao alcance dos orçamentos governamentais, o que não é tarefa fácil. Em geral, as instalações estatais são a opção menos desejável, pois são menos ágeis no atendimento ao consumidor-cidadão, menos inovadoras, mais caras e menos transparentes. Assim, o investimento do setor privado deve ser o principal financiador do desenvolvimento da banda larga em áreas geográficas onde o mercado esteja suficientemente desenvolvido para ter retorno financeiro sólido para o investimento dos operadores. Onde há regiões não atendidas devido a falhas de mercado, os Governos devem entrar diretamente como provedores de serviços ou gerar os estímulos necessários para tornar o mercado mais atraente para o investimento privado.

É importante ter um plano nacional de banda larga, para promover uma visão partilhada e alinhar os esforços de todos os stakeholders na direção certa, coordenando as ações de órgãos privados e governamentais. Para reduzir as desigualdades, é fundamental implementar políticas de inclusão digital e visar setores-chave, como a saúde, a educação e os serviços públicos, para ampliar o impacto social. No sentido de aumentar a eficiência do investimento, é importante disponibilizar regulamentação, políticas de concorrência e incentivos ao investimento privado em infraestruturas, e implementar plataformas para a partilha de infraestruturas. Para aumentar os níveis de adoção, é importante estimular e apoiar a inovação nas empresas em serviços relevantes para os cidadãos e disponibilizar incentivos para empresas e consumidores-cidadãos.

 

4. Promover um ecossistema empresarial forte e aberto

As oportunidades e as ameaças da revolução digital resultam não de ganhos incrementais, mas das disrupções que podem emergir da nova tecnologia. Serviços e produtos da era digital com grande impacto. Estas disrupções tornam redundantes os líderes de mercado e as cadeias de valor económicas, levando à redução da produção e à perda de postos de trabalho e, com o tempo, ao declínio económico e social. Por outro lado, através da disrupção inovadora, os recém-chegados podem tornar-se nos novos líderes.

No entanto, a inovação disruptiva exige formas completamente novas de trabalhar, nova cultura, novas ferramentas, nova economia, tudo novo.

As start-ups tecnológicas estão a perceber como se adaptar e ter sucesso neste novo mundo digital melhor que os incumbentes. É portanto importante que os líderes governamentais criem fortes incentivos para as start-ups e para a implementação de ecossistemas empreendedores inovadores que atraiam talento e capital inteligente e escalem novos serviços e produtos promissores. O grande investimento em empreendedores é mais barato que o financiamento alternativo pela segurança social ou a inquietação do desemprego.

Além disso, dado que os ecossistemas levam tempo para se formar, é importante promover ligações com os ecossistemas mais avançados do mundo, em vez de se focar nos ecossistemas locais, atraindo talento e capital estrangeiros, e ajudando os empreendedores locais a tornarem-se globais.

Os líderes governamentais deveriam acautelar-se e não se envolver no que deve ser conduzido e realizado principalmente por empresas e universidades/centros de pesquisa. Os Governos devem concentrar-se em criar as condições certas para o sucesso destes players, através da regulamentação, incentivos, impostos, políticas, legislação e financiamento. O apoio governamental deve ser seletivo e focado no elevado impacto económico/empreendedorismo de alto impacto social a longo prazo, ou seja, empreendedorismo de transformação e empreendedorismo social, não desperdiçando recursos em empreendedorismo exploratório.

 

5. Estimular as empresas para se transformarem

São as empresas que criam empregos e receita, não os Governos. Assim, um país pode responder com sucesso aos desafios digitais se mobilizar o seu setor privado para reagir rapidamente aos desafios digitais.

Assim, os líderes governamentais devem incorporar nas suas funções a criação de condições, apoiar e estimular as empresas a transformarem-se.

A tecnologia digital ainda agora começou a penetrar nas indústrias. À medida que continua a avançar, as implicações para as receitas, lucros e, portanto, para a sociedade, serão dramáticas. As estratégias digitais abrangentes para empresas e para cadeias de valor/ecossistemas serão o maior diferencial entre empresas/cadeias de valor que ganham e as que não ganham. Aqueles que se envolverem em inovações disruptivas relacionadas com a criação de novos mercados, novas proposições de valor, novas plataformas de hiperescala, novas cadeias de fornecimento e sistemas de negócio terão o retorno mais elevado.

Os líderes governamentais podem agir de várias maneiras. Três tipos de ações devem ser consideradas. Em primeiro lugar, promover a criação ou a emergência de um setor de TIC forte que possa atender aos restantes setores económicos, exportar e competir globalmente. Quanto aos setores de TIC existentes, o seu reforço deve ser uma prioridade para a política económica. Em segundo lugar, aumentar as despesas de TIC em termos de investimento e consumo. Em terceiro lugar, implementar abordagens setoriais participadas, em que a política económica não é dirigida apenas à economia como um todo mas também a setores económicos muito específicos e com medidas específicas, por exemplo, produção conectada, retalho centrado no cliente, agricultura inteligente, cidades inteligentes, educação digital e saúde centrada nas pessoas.

 

6. Desenvolver competências digitais críticas

Dado que a Quarta Revolução Industrial é baseada no conhecimento, os líderes governamentais precisam de promover uma revolução simultânea na formação e na educação.

Isto requer um plano nacional para competências digitais. Tal plano tem de abordar tanto as novas competências requeridas como o impacto das novas tecnologias digitais no emprego.

O novo conjunto de competências precisa de ser tratado a três níveis. Em primeiro lugar, em relação às CTEM – ciência, tecnologia, engenharia e matemática – sobretudo no ensino secundário e nas universidades, para potenciar a capacidade digital da economia no curto prazo. Em segundo lugar, em todos os níveis escolares, introduzir o acesso digital a todos os alunos (laptop por aluno ou outros métodos) e mudando o método de ensino, em que o professor não é mais o centro da sala de aula, mas antes o facilitador de uma ampla gama de conhecimento acessível via internet. Em terceiro lugar, alfabetização digital básica para a população em geral, a fim de reduzir a divisão digital.

Por outro lado, equilibrar os ganhos e perdas de emprego, e superar o desfasamento entre as competências necessárias e as disponíveis (escassez) é um empreendimento complexo que requer estreita cooperação entre provedores de educação, Governos e empresas.

A melhor maneira de proteger os empregos não é atrasar as tecnologias que suprimem postos de trabalho, mas sim acelerar as tecnologias que criam novos empregos. Inovações de eficiência reduzem o emprego. Inovações disruptivas que criam mercado criam emprego.

Por último, os líderes governamentais devem ser ousados e concertar-se o mais cedo possível com instituições sociais e com sindicatos de trabalhadores no que diz respeito à flexibilidade do trabalho na era digital.

 

7. Combater a exclusão digital – proteger a sociedade

A revolução digital pode ter um impacto dramático nos setores da sociedade menos preparados para se adaptar ou já em posição de desvantagem. A tendência é a disrupção digital aumentar as desigualdades, a menos que os líderes governamentais avancem com medidas decisivas para trabalhar em modelos de maior inclusão.

O igual acesso à internet é um campo básico necessário de equiparação que pode levar a novas oportunidades para os mais pobres e para os excluídos, ao fornecer informação mais barata e mais rápida e conhecimento para todos.

Os programas governamentais dirigidos aos jovens, aos pobres da malha urbana, aos habitantes rurais e de locais remotos, aos idosos, às mulheres e aos trabalhadores reciclados, podem tornar a tecnologia um fator libertador. Os dispositivos móveis e comunicações, os modelos DIY (faça você mesmo), as redes sociais e outras tecnologias podem permitir o emergir de novos modelos económicos, que agora podem fornecer recursos competitivos aos indivíduos e aos pequenos operadores económicos mais facilmente do que no passado.


8. Envolver campeões e conselheiros de topo

A revolução digital torna a paisagem competitiva mais complexa. As nossas vidas estão a tornar-se numa combinação de dimensões física, técnica e biológica.

Devido ao ritmo acelerado dos avanços tecnológicos, os países que aproveitam as tecnologias digitais podem obter benefícios económicos significativos a longo prazo. As nações que demoram a entrar no digital correm o risco de ficar ainda mais para trás.

Neste contexto, os Governos, os partidos políticos e o setor público deveriam adotar práticas para atrair os indivíduos mais qualificados, fornecendo-lhes as condições necessárias para terem sucesso. Nesse sentido, as perspetivas nacionalistas devem ser sopesadas com o ganho associado a ter os indivíduos mais qualificados do mundo, independentemente da nacionalidade, para reforçar universidades e instituições públicas.

Além disso, é necessário um novo tipo de líder, capaz de pensar de forma criativa nas novas estruturas sociais necessárias para ajustar aos desafios da revolução digital. Mais: é necessário um novo tipo de liderança, com maior relação com a aprendizagem e a coordenação do que com instruir, com a partilha do que com a exclusão, com experimentar e inovar do que com administrar, com comunicar digitalmente do que formalmente, com formular respostas ágeis do que regras burocráticas.

Os líderes governamentais de hoje têm uma responsabilidade muito grande na criação de condições para que as gerações futuras vivam de modo adequado num futuro tecnologicamente orientado.

[1] Este artigo é baseado numa apresentação do CEO da Leadership Business Consulting, Carlos Oliveira, na Technology Innovation Conference em Joanesburgo, 2018

 

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