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Energias renováveis – O caso da China

A escassez e o elevado custo das fontes de energia tradicionais (petróleo, carvão, gás natural) têm reforçado o papel e a importância das energias renováveis a nível mundial.

O caso chinês tem particular importância por várias razões: 

  • Pela dimensão do país e da população (em 2007) responsável por 16,8% do consumo global de energia primária (só superado pelos EUA);
  • Pelo crescimento económico e consequentemente pelo aumento das necessidades energéticas (10% por ano desde 2000), quer para atividade produtiva, quer para satisfazer a melhoria do nível de vida do cidadão chinês (automóveis, eletrodomésticos...);
  • Pelo impacto ambiental que a utilização de fontes de energia tradicionais tem tido (a China depende essencialmente do carvão – 69% do consumo de energia em 2006), com 16 das 20 cidades mais poluídas do mundo e a pouco honrosa distinção de principal emissor global de CO2;
  • Pelas características geológicas do país, em que as reservas existentes de petróleo, gás natural e carvão devem ser esgotadas em 15, 30 e 80 anos respetivamente; e
  • Por motivos geopolíticos que conduzem a que a China se queira manter relativamente independente em termos energéticos (e daí também as recentes aquisições de ativos energéticos em África e na Ásia).

A importância das energias renováveis torna-se desta forma naturalmente clara, permitindo complementar as fontes de energia tradicionais e, em certa medida, substitui-las, reduzindo o impacto ambiental e contornando as limitações geológicas das reservas locais, permitindo manter grande independência energética.

Em 2006 as energias renováveis eram responsáveis por 7% do consumo de energia primária na China – contudo, a quase totalidade deste valor correspondeu a energia hídrica. Excluindo esta, a soma de todas as energias alternativas representou apenas 0,93% do consumo total de energia. 

 

Orientações governamentais
A atuação do Governo chinês na área das energias renováveis tem vindo a ser dinamizada nos últimos anos, sendo tornada clara em três documentos fundamentais:

  • A Lei das Energias Renováveis, de fevereiro de 2005 (“Lei”);
  • O Plano de Desenvolvimento de Médio e Longo Prazo de Energia Renovável, de setembro de 2007 (“Plano”); e
  • O Catálogo de Investimento Estrangeiro, de dezembro de 2007 (“Catálogo”).

De forma resumida, a Lei estabelece objetivos e áreas a desenvolver, cria um mecanismo de “feed-in” para a rede, aborda a formação de preços, avança uma forma de partilha de custos e cria facilidades de financiamento. Posteriormente, um conjunto de elementos regulatórios abordam especificidades como sejam incentivos fiscais, ligação à rede, pricing, análise de capacidade, regulamentos técnicos e standards. 

O plano estabelece objetivos ambiciosos – até 2020, 15% de toda a energia consumida deve vir de fontes renováveis (30% em 2050), num investimento esperado de US$270 mil milhões. Detalhando por tipo de energia, o plano aponta para que em 2020 existam 300GW de capacidade hídrica instalada, 30GW para capacidade eólica e o mesmo valor para biomassa e, finalmente, 1.8GW para energia solar.

Quanto ao catálogo, na sua revisão de 2007, coloca a construção e operação de estações de produção de energias alternativas (solar, eólica, magnética, geotérmica, marés, biomassa, etc.) na categoria das indústrias encorajadas. Na prática, e existindo três tipos de indústrias (encorajadas, restritas e proibidas), esta categorização das energias renováveis pode significar processos de aprovação simplificados, benefícios fiscais, subsídios e/ou condições especiais de financiamento.

 

O caso específico da energia eólica
De acordo com números da European Wind Energy Association, a China era, em finais de 2007, o 5.º maior produtor mundial de energia eólica, com uma capacidade instalada de 6 GW, dos quais 3.5 GW instalados durante 2007. A título comparativo, o maior produtor era a Alemanha (22.2 GW), seguido de Espanha (16.8 GW), enquanto Portugal fechava o top 10 mundial (2.1 GW).

Na realidade, existindo ainda um significativo fosso entre os 6GW instalados e os 30GW objetivos para 2020, a verdade é que, mantendo-se o ritmo de 2007, o objetivo de 2020 seria atingido muito antes (o plano, emitido em 2007, foi baseado em dados de 2005 e previa 5GW em 2010, entretanto já revistos para 10GW). O Greenpeace apontava para valores entre os 50 e os 100 GW, e mesmo o órgão máximo de planeamento chinês (a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma - NDRC) já projeta 120 GW até 2020. Além disso, e para se ter uma noção do potencial do país para a produção de energia eólica, as estimativas do Plano apontam para 1.000 GW de capacidade viável, contando com exploração “onshore” e “offshore”.

Esta capacidade é também economicamente interessante, já que está concentrada em três grandes áreas: no litoral, nas províncias entre Shandong e Guangxi, incluindo Jiangsu,Shanghai, Zhejiang, Fujian e Guangdong, com uma densidade de energia eólica acima de 200W/m2; no Norte da China, especialmente nas províncias de Xinjiang, Mongólia Interior e Hebei, com uma densidade de 500 W/m2 em algumas zonas; e ao largo da costa.

À primeira vista, a diferença entre a capacidade atualmente instalada e os objetivos do Governo e, acima de tudo, face ao potencial eólico do país, indicaria uma excelente oportunidade para investidores. Contudo, a realidade tem sido temperada por duas barreiras principais:
  
   I) A dificuldade em ganhar concursos públicos para a atribuição de projetos eólicos – entre 2003 e 2005 foram realizados concursos para 12 parques eólicos, sendo que empresas públicas ganharam 8 enquanto que operadores privados chineses ficaram com os restantes 4. Um dos principais critérios de atribuição tem sido o preço de venda de energia mais baixo. Uma vez que o Governo exige que os produtores de energia tenham uma quota mínima de energias renováveis, estes não se importam de perder dinheiro (com propostas abaixo do preço de custo) de forma a ganhar projetos eólicos que lhes permitam atingir as quotas. Neste contexto, as empresas estrangeiras não conseguem ser competitivas, uma vez que, naturalmente, buscam a obtenção de lucros; 

   II) O estabelecimento de preços competitivos que permitam um retorno do investimento – sendo a harmonia social e a contenção de preços uma das principais (senão a principal) preocupações do Executivo chinês, facilmente se compreende que o pricing da energia é muito pouco elástico. Veja-se o que acontece no caso dos combustíveis, em que o Governo opta por subsidiar os distribuidores (eles próprios empresas públicas) em vez de aumentar os preços em linha com valores de mercado.

Apesar de estes motivos estarem a deixar de fora a maior parte dos grandes players internacionais do setor, existem exceções, casos de sucesso que apontam um possível caminho. 

No caso da produção de turbinas e componentes, as duas maiores empresas mundiais têm fábricas na China. A dinamarquesa Vestas (23% de quota de mercado mundial) tem várias fábricas de componentes em Tianjin, estando presente na China desde 2005. A espanhola Gamesa (15% do mercado mundial) investiu 40 milhões de euros para ter uma capacidade de produção de 700 MW de turbinas também em Tianjin, escoando já na China 15% dos seus produtos. A norte-americana GE, a indiana Suzlon e a alemã Nordex também já fabricam localmente.

Quanto à produção de energia, um caso concreto frequentemente referido é o da australiana Roaring 40s. Esta empresa estava envolvida em 7 parques eólicos (em construção e em operação) nas províncias de Shandong e Jilin. O seu modelo de atuação tem características particulares e que se adaptam bem às condicionantes do país: 

  • Atua sempre em joint-venture, com dois parceiros (3 projetos com uma empresa, 4 com outra), ambos grandes empresas estatais;
  • Procura projetos de menor dimensão, 50 MW, que escapam à atenção das grandes empresas e aos concursos públicos decididos no Governo Central (que incidem sobre projetos de pelo menos 200 MW); e
  • Contacta diretamente as autoridades locais, conseguindo obter preços que, segundo algumas fontes, serão 60% superiores aos cobrados pelas empresas chinesas nos grandes projetos atribuídos centralmente.

Mais recentemente, esta empresa conseguiu dar um passo significativo, ao assinar um acordo com a Datang Jilin Power Generation Company, uma empresa estatal com uma capacidade instalada de 55 GW (no conjunto dos vários tipos de energia), para o desenvolvimento de um parque eólico de 1000 MW. A construção será feita por fases, a começar durante 2008, e quando concluído será um dos maiores parques eólicos do mundo.

Outra empresa envolvida noutros 7 projetos, todos na Mongólia Interior, é a Honiton Energy Holdings, atuando também através de fases incrementais de 50 MW. Apesar de cada parque ter uma capacidade de pelo menos 200 MW, este faseamento garante processos de aprovação mais rápidos e evita sobrecarregar a rede elétrica. A Honiton é uma empresa de capitais estrangeiros e foi recentemente adquirida (julho de 2008) por um banco de investimento do Dubai e por uma empresa de Singapura, num negócio avaliado em 2 mil milhões de dólares. Ao contrário da Roaring 40s, a Honiton aborda cada projeto sem parceiros, não recorrendo a joint-ventures com empresas chinesas.

Um outro aspeto interessante foi a obtenção do primeiro acordo de compra de eletricidade (Power Purchasing Agreement) assinado com empresas estrangeiras, com uma duração de 25 anos e no âmbito do qual as primeiras 30.000 horas são remuneradas a RMB 0.548 por kw/h (cerca de 0,05€) e posteriormente a preços de mercado.

Os casos apresentados são prova de que a China constitui atualmente um mercado real nas energias renováveis – quer para geração de energia, quer para produção de equipamentos. Contudo, como na generalidade dos setores neste país, é fundamental usar engenho, flexibilidade e persistência de forma a ultrapassar os obstáculos existentes, sendo certo que há sempre lugar para o investimento estrangeiro que seja diferenciador e acrescente valor à economia chinesa.


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In Leadership Agenda N.º 3 (publicação que tem por objetivo divulgar metodologias e novas ideias nas áreas da gestão e da liderança, tendo por base o centro de competência e o conhecimento adquirido pela Leadership Business Consulting em mais de 850 projetos realizados em oito países nas áreas da estratégia, marketing e finanças, organização e gestão da mudança, operações e performance, desenvolvimento de talento, formação ou tecnologias de informação).